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21/02/2008 - Crítica - A música instrumental criativa do BDMG Instrumental 2007

Por: José Domingos Raffaelli

Minas Gerais sempre foi e continua sendo um celeiro de músicos, muitos dos quais conquistaram fama aqui e no exterior devido a seu talento, inventividade, originalidade e musicalidade.

Um dos projetos mais importantes de apoio ao músico brasileiro é o Prêmio BDMG-Instrumental, patrocinado pelo BDMG-Cultural, de Belo Horizonte, instituído em 2001, e este ano apresentará sua oitava edição. Este projeto único em todo o Brasil prestigia exclusivamente música instrumental brasileira, com ramificações em outros estados e outras cidades. Com ampla divulgação na mídia, sua realização mobiliza anualmente inúmeros músicos, tornando-se desde sua implantação um evento do mais alto gabarito para a divulgação, expansão e evolução da música instrumental criada em Minas Gerais.

Outra ambiciosa e valiosa iniciativa do BDMG-Cultural foi a gravação do CD "BDMG INSTRUMENTAL 2007", reunindo os quatro vencedores (André "Limão" Queiroz, Antonio Loureiro, Gustavo Figueiredo e Márcio Hallack) e os dois finalistas daquele evento (André Rocha e Rodrigo Torino). Gravado entre maio e agosto de 2007, com direção da produção de Malluh Praxedes e direção musical do violonista-guitarrista Juarez Moreira, foram perpetuadas 12 músicas, cabendo a cada músico interpretar duas de suas composições apresentadas naquele evento em abril do ano passado no Teatro Sesiminas.

O baterista André "Limão" Queiroz lidera um quinteto bastante entrosado integrado por Cléber Alves e Chico Amaral (saxofones), Magno Alexandre (guitarra) e Beto Lopes (baixo). Suas belas composições "Abril", de linha melódica densa, bem elaborada, com os saxofonistas em uníssono totalmente entrosados, e "Para os filhos", melodia instigante de frases sinuosas com os saxofonistas movimentando-se alternadamente, sobressaem pela qualidade e pelo entendimento do conjunto.

O pianista Antonio Loureiro deixou magnífica impressão em suas duas composições. Sem dúvida, é um músico de grande futuro. "Nuvem", com Daniel Pantoja (flauta), Pablo Souza (baixo) e Tarcísio Braga (bateria), abriga sugestivas alterações de andamento. Em "Volupedes", na qual Loureiro também toca bateria, o conjunto é reforçado por Felipe José (violoncelo); sua interpretação, em andamento rápido, realça a integração dos músicos no contexto, além do instigante solo de Felipe José em contraponto com o flautista Daniel Pantoja.

O pianista Gustavo Figueiredo marca presença com duas formações. Em "Sem Saber", um tema em tom menor, apresenta-se em quarteto com Chico Amaral (sax-tenor), Beto Lopes (baixo elétrico) e Hudson Vaz (bateria); seu arranjo criativo interpretado sem solos improvisados exalta a unidade do grupo... "A César o que é de César", uma bossa nova de suíngue ininterrupto, abre caminho para solos criativos do líder e Beto Lopes...

Márcio Hallack, um dos mais festejados pianistas mineiros, oferece duas inequívocas amostras da sua criatividade como solista e compositor. O generoso balanço da bossa nova "Cenoura com Laranja (Por Aí)", o trio com Enéias Xavier (baixo) e Esdra Ferreira Neném (bateria) esbanja categoria e criatividade. "Pat", peça de rara beleza, acentuado Lirismo e sensibilidade, em duo de Hallack com o saxofonista-tenor Glaucus Linx, reedita um dos momentos mais sublimes do BDMG-2007, evocando longinquamente o clima de "Naima", de John Coltrane, embora sem qualquer relação com a mesma.

Entre os finalistas, o violonista André Rocha demonstra ser um músico bastante promissor.

Ele comparece com um quarteto integrado por Pedro Santana (baixo), Rafael Martinez (violão) e Shante Cabral (violoncelo) em duas composições que revelam seu talento latente de compositor ambicioso, inteligente e refinado. "Prelúdio Metachórico", melodia algo solene de influência clássica, é inteiramente escrita, inclusive o solo de violoncelo. "Primeiro Apontamento", dedicada a Egberto Gismonti, é algo especial. Mais que uma peça interpretada com esmero e refinamento elaborada em atmosfera algo abstrata, é uma composição extensa desenvolvida em forma de suíte eivada de diferentes facetas, desenvolvimentos temáticos, interlúdios e passagens com precisa interação dos violões e violoncelo entrelaçados, incluindo solos de André e Cabral. Esta gravação sugere influências de mestres clássicos e, provavelmente, abrirá novos caminhos para novas experiências de André Rocha.

O violonista Rodrigo Torino lidera um trio de formação inusitada, coadjuvado por Marcelo Chiaretti (flauta) e Alaécio Martins (trombone ) na bela e nostálgica "Duas Saudades". Em quinteto, com Alaécio Martins, Marcelo Chiaretti, Mateus Bahiense (pandeiro) e Sérgio Rodrigo (cavaquinho), emulam um clima de gafieira com ebulientes passagens de flauta-trombone no movimentado choro "Virou baixaria", encerrando com chave de ouro a música criativa e excitante de "BDMG-Instrumental 2007".

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