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Casa Fiat de Cultura inaugura exposição de Valentina Tedeschi, que transforma ferro, mel e alimento em linguagem artística
Exposição reúne esculturas e pintura que investigam as relações entre gastronomia, memória e tempo
O alimento como memória e linguagem artística é o ponto de partida da exposição "A ponta da língua", da artista visual paulistana Valentina Tedeschi, selecionada no 9º Programa de Seleção da Piccola Galleria da Casa Fiat de Cultura. Em cartaz de 28 de julho a 13 de setembro, a mostra reúne quatro esculturas e uma pintura sobre ferro que exploram as relações entre corpo e natureza por meio de materiais associados ao universo da alimentação. Toda a programação é gratuita e integra as comemorações dos 20 anos da Casa Fiat de Cultura em 2026.
A pesquisa de Valentina Tedeschi parte de uma herança cultural ligada à alimentação, presente em sua família tanto como tradição quanto como ofício. Avós, pais e outros familiares dedicaram-se à gastronomia, tornando a cozinha um espaço de convivência e transmissão de saberes. Após concluir a graduação em Artes Visuais e passar uma temporada vivendo e trabalhando em um restaurante na Itália, a artista reconheceu nesse universo o eixo de sua investigação. Em sua produção, ingredientes, utensílios e materiais deixam de cumprir apenas suas funções cotidianas para revelar processos de transformação, permanência e deterioração, estabelecendo relações entre o fazer culinário e a prática artística.
Na exposição, o ferro ocupa um lugar central. Presente em panelas e utensílios da cozinha, o material é utilizado em sua condição mais bruta, marcada pela ação do tempo e pela oxidação. Em vez de ocultar a ferrugem, a artista a incorpora ao processo criativo, fazendo com que ela participe da construção das imagens e das superfícies das obras. O metal, assim como os alimentos, passa a registrar a passagem do tempo e a conservar vestígios de sua própria história.
Essa investigação se estende a outros materiais, como o mel, um dos conservantes naturais mais antigos da humanidade. "A comida sempre esteve presente na minha vida como parte da história da minha família e do trabalho desenvolvido por diferentes gerações. Depois da faculdade, percebi que esse universo também era o lugar da minha pesquisa. Trabalho com materiais que carregam o tempo em sua superfície, como o ferro e o mel, porque me interessa pensar como eles preservam histórias, transformam-se e continuam produzindo significados", destaca Valentina Tedeschi.
Em esculturas como "Escorpião-amarelo" e "Artrópode", o mel é moldado em formas inspiradas em animais que fazem parte das cadeias ecológicas ligadas à alimentação. Ao longo da exposição, o material escurece naturalmente, alterando sua tonalidade e tornando visível a ação do tempo sobre a própria obra.
A relação com o alimento está presente também em obras como "Espetinho", na qual um cogumelo metálico é atravessado por um espeto, estabelecendo um diálogo entre o ingrediente em seu estado natural e as transformações provocadas pelo ato de cozinhar. Já em "Arroz com feijão", Valentina utiliza uma placa de ferro oxidada para registrar as silhuetas dos dois alimentos que compõem um dos pratos mais emblemáticos da culinária brasileira, inspirando-se no Banco Global de Sementes de Svalbard, na Noruega, onde variedades agrícolas são preservadas para as futuras gerações.
O título da mostra faz referência ao antigo mapa da língua, que atribuía à sua extremidade a percepção do sabor doce. Embora essa teoria tenha sido superada pela ciência, ela permanece como uma construção cultural e serve de ponto de partida para a artista refletir sobre os modos como experimentamos o alimento e construímos memórias por meio do paladar.
Segundo a curadora Julia Cavazzini Cunha, as obras de Valentina revelam como cozinhar representa uma das primeiras tecnologias desenvolvidas pela humanidade e como os alimentos preservam histórias que ultrapassam seu valor nutricional. "Ao combinar ferro, mel, oxidação e outros materiais associados à cozinha, a artista evidencia que a transformação da matéria também é uma forma de conservar gestos, saberes e experiências coletivas", completa.
A exposição "A ponta da língua" é uma realização viabilizada pela Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), do Ministério da Cultura e da Casa Fiat de Cultura. Conta com o patrocínio da Stellantis e da Fiat. A mostra tem apoio cultural do Programa Amigos da Casa.
Bate-papo de abertura da exposição
Para marcar a abertura da exposição, Valentina Tedeschi conversa com o público sobre os caminhos que a levaram da culinária à pesquisa artística. A artista compartilha como sua vivência em uma família ligada à gastronomia e a experiência de morar e trabalhar em um pequeno restaurante no Norte da Itália despertaram seu interesse pelas relações entre alimento, materialidade e criação artística, hoje presentes em suas esculturas e pinturas sobre ferro. O encontro é uma oportunidade de conhecer de perto o processo criativo por trás da exposição. Os interessados podem se inscrever gratuitamente pela Sympla.
Sobre a artista
Em sua prática, Valentina Tedeschi investiga a alimentação a partir do próprio alimento como matéria-prima ou referência formal no desenho e escultura, articulando texturas e sobreposições à ideia de vestígio. Seu procedimento parte da pesquisa de representações, receitas e costumes alimentares ao longo da história, e os combina ao ferro, característico dos utensílios de preparo, para evidenciar os processos que atravessam suas transformações. Tensionando as noções de conservação e deterioração, sua pesquisa incorpora como gesto uma tentativa de preservar o que é perecível e prolongar o que existiria apenas no tempo da experiência.
Piccola Galleria
A Piccola Galleria é um espaço destinado a artistas da cena contemporânea e foi criado em 2016 com o intuito de incentivar a produção nacional e internacional. Situado ao lado do painel “Civilização Mineira”, de Candido Portinari, no hall principal da Casa Fiat de Cultura, o pequeno recinto é destinado a exposições de curta duração, mas com toda a visibilidade que a instituição enseja.
Os artistas que expõem na Piccola Galleria são selecionados por uma comissão de especialistas, que nesta 9ª edição contou com Katia Wille, artista visual e pesquisadora; Giancarlo Hannud, historiador da arte, curador e pesquisador; e Marcel Diogo, artista, professor e curador independente. O processo foi realizado de forma 100% online, de modo a facilitar a inscrição de pessoas de todo o Brasil. No total, mais de 370 trabalhos foram enviados.
A proposta é apresentar e destacar trabalhos inéditos – pinturas, desenhos, gravuras, esculturas, fotografias, instalações, performances e/ou videoarte – de artistas locais, brasileiros ou estrangeiros. Além de Valentina Tedeschi, outros cinco artistas foram selecionados no 9º Programa de Seleção da Piccola Galleria, e suas exposições serão exibidas na programação de 2026/2027.
Casa Fiat de Cultura
A Casa Fiat de Cultura cumpre importante papel na transformação do cenário cultural brasileiro, ao realizar prestigiadas exposições. A programação estimula a reflexão e interação do público com várias linguagens e movimentos artísticos, desde a arte clássica até a arte digital e contemporânea. Por meio do Programa Educativo, a instituição articula ações para ampliar a acessibilidade às exposições, desenvolvendo réplicas de obras de arte em 3D, materiais em Braille e atendimento em libras. Mais de 100 mostras, de consagrados artistas brasileiros e internacionais, já foram expostas na Casa Fiat de Cultura, entre os quais Caravaggio, Rodin, Chagall, Tarsila, Portinari entre outros. Há 20 anos, o espaço apresenta uma programação diversificada, com música, palestras, residência artística, além do Ateliê Aberto – espaço de experimentação artística – e de programas de visitas com abordagem voltada para a valorização do patrimônio cultural e artístico. A Casa Fiat de Cultura é situada no histórico edifício do Palácio dos Despachos e apresenta, em caráter permanente, o painel de Portinari, Civilização Mineira, de 1959. O espaço integra um dos mais expressivos corredores culturais do país, o Circuito Liberdade, em Belo Horizonte. Mais de 5 milhões de pessoas já visitaram suas exposições e 800 mil participaram de suas atividades educativas.
SERVIÇO: Exposição "A ponta da língua", de Valentina Tedeschi, na Casa Fiat de Cultura
Período expositivo: 28 de julho a 13 de setembro de 2026
Visitação presencial: terça-feira a sexta-feira das 10h às 21h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h (exceto segundas-feiras)
Tour virtual no site: www.casafiatdecultura.com.br
Bate-papo de abertura da exposição com a artista Valentina Tedeschi
28 de julho, terça-feira, às 19h, na Casa Fiat de Cultura
Inscreva-se gratuitamente pela Sympla: bit.ly/BatePapoValentinaTedeschi
Toda programação da Casa Fiat de Cultura é gratuita
Casa Fiat de Cultura
Praça da Liberdade, 10 – Funcionários – BH/MG
Circuito Liberdade
Horário de Funcionamento
Terça-feira a sexta-feira, das 10h às 21h
Sábado, domingo e feriado, das 10h às 18h
Informações
www.casafiatdecultura.com.br
[email protected]
facebook.com.br/casafiatdecultura
Instagram: @casafiatdecultura
X: @casafiat
YouTube: Casa Fiat de Cultura
Foto: Julia Thompson_08
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