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Centro Cultural UFMG recebe ‘Horizonte Abissal’, primeira exposição individual de Glayson Arcanjo em Belo Horizonte

Festival será realizado no dia 26 de setembro, em Ouro Preto, e promete unir música, cultura e turismo em um dos cenários mais encantadores de Minas Gerais

O Centro Cultural UFMG convida para a abertura da exposição individual ‘Horizonte Abissal’, do artista visual Glayson Arcanjo, com curadoria de Yana Tamayo. A mostra reúne trabalhos que investigam o corpo humano, o solo, o tempo e as materialidades que compõem a paisagem, por meio de diferentes linguagens, como desenho, fotografia, pintura, vídeo e instalação. A abertura será realizada no dia 31 de julho de 2026, sexta-feira, às 19 horas. As obras poderão ser vistas até 6 de setembro de 2026. A entrada é gratuita e a classificação é livre.

Sob os abismos da superfície, o fundo do chão – por Yana Tamayo, curadora

Em sua primeira exposição individual em Belo Horizonte, o artista mineiro radicado em Goiânia, Glayson Arcanjo, apresenta um conjunto de trabalhos produzidos entre 2021 e 2026 que investigam as relações entre a vida e o solo que a sustenta. Artista visual e professor da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás (UFG), Arcanjo articula criação, pesquisa e ensino ao realizar exposições, investigar processos de criação e lecionar disciplinas ligadas ao desenho e à experimentação poética.

‘Horizonte Abissal’ chega ao Centro Cultural UFMG reunindo mais de 20 obras realizadas nos últimos seis anos. Desenvolvidos em diferentes linguagens — desenho, fotografia, pintura, vídeo e instalação —, os trabalhos propõem uma aproximação sensível entre o corpo, a vida vegetal, a materialidade do solo, o tempo e as relações que conformam a paisagem. O território habitado pelo artista torna-se campo de observação, experimentação e elaboração poética na tentativa de formular outras maneiras de compreender o que se vê: um lugar onde o tempo e as intempéries agem sobre todas as coisas e no qual cada elemento transforma e é transformado pelos demais. O chão oferece estabilidade, abrigo e nutrição, mas também delimita fronteiras, dissonâncias e territórios em disputa.

A ideia clássica da natureza como espaço de equilíbrio e harmonia desfaz-se quando a percebemos como um sistema vivo, instável e vertiginoso que é. A terra surge como alicerce, abismo e reservatório da vida: uma imagem ambivalente, em permanente movimento. Essa dimensão torna-se cada vez mais evidente à medida que a expansão das formas capitalistas de exploração intensifica as transformações da Terra.

Nos últimos anos, Arcanjo tem investigado a materialidade do solo, seus ciclos de transformação e as relações humanas, políticas e econômicas que continuamente o redefinem. Seu trabalho evidencia também as assimetrias, tensões e violências que atravessam os usos da terra no território brasileiro, especialmente no Cerrado. A paisagem evocada pelo artista é continuamente remodelada por processos geológicos, ciclos orgânicos e atividades produtivas em larga escala.

O desenho ocupa um lugar central nessa pesquisa. Mais do que uma técnica, opera como matriz de reflexão e ferramenta de escuta do mundo. Graficamente, pictoricamente e poeticamente, evidencia a fisicalidade dos influxos envolvidos nos trânsitos da matéria. Desenhar torna-se um modo de observar, coletar, separar e experimentar diferentes composições — uma prática que se aproxima metodologicamente das ciências, mas que, em vez de produzir provas, prefere formular perguntas conduzidas pela sensibilidade e pela imaginação.

Grande parte das obras nasce do contato direto com a terra. O artista coleta amostras de solo, peneira, separa e prepara pigmentos, preservando as tonalidades que revelam a composição mineral e orgânica de cada lugar. Ao transformar terra em pigmento, transporta fragmentos do território para o campo da linguagem. Misturado à água, o pó é suspenso, decanta, para, em seguida, ser depositado sobre papel ou porcelana. A partir daí, espera, experimentação e acaso passam a conduzir o processo. Alguns pigmentos aderem intensamente; outros se desfazem facilmente. O tempo torna-se colaborador da obra, e a imagem emerge da interação entre forças visíveis e invisíveis.

Em meados de 2020, o chão deixou de ser apenas uma superfície para tornar-se o espaço primordial de relação e disputa entre tudo o que vive, se transforma ou se move. Nele, a vida germina, enraíza-se e decompõe-se. Sob essa perspectiva de dependência mútua, a decomposição pode ser compreendida como recomposição, compostagem ou restituição da matéria viva.

Durante a produção das obras para esta mostra, novos procedimentos passaram a tensionar a ideia de superfície. Se, inicialmente, o artista se dedicava aos vestígios encontrados no rés do chão — pigmentos, raízes, galhos, cinzas, variações cromáticas da terra e suas relações com a água —, aos poucos seu olhar desloca-se para estratos, camadas, saturações e profundidades. A paisagem imaginada por Glayson amplia-se como se pudéssemos olhar também verticalmente por dentro dela, através de fendas, erosões e frestas.

Esse movimento de descida — presente também em trabalhos nos quais o artista submete o próprio corpo à resistência do contato vertical com o chão — nos convida a refletir sobre nossa maneira de produzir relações e realidades materiais sobre a Terra. Na mitologia grega, a catábase designa a descida ao mundo dos mortos. Embora represente a travessia de um herói em direção ao submundo, essa narrativa reafirma uma separação entre vida e morte e entre mundos incomunicáveis.

Outras cosmologias, porém, oferecem imagens distintas. Em muitas narrativas ameríndias — especialmente nas cosmovisões andinas — o interior da terra não corresponde apenas ao mundo "inferior", mas a um plano de conhecimento, de encontro com os ancestrais, as sementes, a maturação dos minerais e os ciclos de transformação e preparo da vida. Essa cartografia imaginária acerca da terra conecta memórias ainda vivas dos projetos coloniais de extração mineral que aproximam as minas de Potosí, na Bolívia, das minas de Vila Rica, atual Ouro Preto. Ambas tiveram papel crucial para forjar a modernidade europeia.

O título da exposição faz menção a uma travessia coletiva: imaginar a descida ao ventre da Terra é também uma experiência vertiginosa de imaginação histórica. Poderíamos retornar à superfície transformados por essa experiência abissal de cinco séculos de esvaziamento dos solos? Ainda pertencemos à terra ou apenas a atravessamos?

Ao reorganizar poeticamente os elementos e as forças que determinam o horizonte que vemos, Glayson Arcanjo nos convida a reconhecer a interdependência entre os seres e as matérias que compõem um ecossistema, convocando uma memória afetiva e sensorial da terra inscrita em nossos corpos. Nesse percurso, entre suspensão, impregnação e submersão, a terra deixa de ser apenas suporte para afirmar-se como corpo vivo, arquivo de memórias e pergunta sobre os modos de habitar um mundo em partilha.

Sobre o artista

Glayson Arcanjo (Belo Horizonte, MG, 1975. Vive e trabalha em Goiânia, GO) é artista, educador e pesquisador. É professor na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás (FAV/UFG), onde também coordena a Galeria da FAV. Doutor em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp, 2018), mestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG, 2008) e bacharel em Educação Artística pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU, 2006). Seus trabalhos integram acervos de importantes museus e coleções públicas brasileiras, como a Pinacoteca de São Paulo, o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), o Centro Cultural UFG e o Museu de Arte da UFU (MUnA). Entre suas exposições individuais, destacam-se: ‘Terra: suspensão, impregnação, submersão’ (SESIMINAS, 2026); ‘Meu quintal é um mundo’ (Ateliê Vão, GO, 2026); ‘As coisas começam no chão’ (Sesc Goiás, 2024); ‘Rastro/Ruína’ (MUnA, MG, 2022) e ‘Desenho/Ruína’ (MAPA, GO, 2022). Participou também de diversas mostras coletivas, incluindo ‘Mapas em Brasa’ (Galeria da FAV UFG, 2026), ‘Caminhos de terra e vento’ (Vila Cultural Cora Coralina, GO, 2025), ‘Panorama da Arte Contemporânea de Goiás’ (Galeria Sibasolly, 2024) e ‘Dias fora de tudo’ (Centro Cultural UFMG, 2023).
Sobre a curadora

Yana Tamayo (Brasília, DF, 1978. Vive e trabalha em Brasília) é artista visual, curadora e pesquisadora. Doutora e mestre pelo Instituto de Artes da UnB e graduada em Artes Plásticas pela UFMG. Com aproximadamente 24 anos de trajetória nas artes visuais, sua pesquisa articula arte, educação e curadoria para investigar novas formas de diálogo entre materialidade, memória e esfera pública no Brasil e na América Latina. Foi sócia-fundadora do espaço autônomo Nave (DF), onde coordenou projetos de pesquisa, formação e curadoria.

Exposição ‘Horizonte Abissal’ – Glayson Arcanjo
Abertura: 31 de julho de 2026 | às 19h
Visitação: até o dia 06/09/2026
Terças a sextas: 9h às 20h
Sábados, domingos e feriados: 9h às 17h
Grande Galeria
Classificação indicativa: livre
Entrada gratuita

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Foto: Glayson Arcanjo

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